Nós e os Advogados
9.00 h da manhã em qualquer Tribunal, em qualquer ponto do País, estamos lá. Somos aqueles de vestuário sóbrio, semblante sisudo, pastas, códigos, togas debaixo do braço, caminhando apressadamente em direcção dos Juízos, Secções, Secretarias.
Abordamos funcionários, aguardamos chamadas às portas das salas de audiência.
Tendencialmente, agrupamo-nos. Se estamos em lados opostos, tentamos acordos, soluções de última hora, mediamos conflitos....Se não nos conhecemos ou não estamos no mesmo processo, discutimos questões profissionais, dificuldades do sistema de justiça, convivemos, fumamos uns cigarros. Ocasionalmente, porque as esperas são longas, bebemos um café.
Esquecemos, por vezes, se ali estivermos no âmbito do patrocinio oficioso, de procurar o "nosso arguido" a quem nunca vimos porque não apareceu quando o convocámos....
Aguardamos que responda à chamada e, de seguida, uma troca rápida de palavras: " Já alguma respondeu em Tribunal? ", resposta prontamente dada: Não, ainda que, poucos minutos depois o boletim do registo criminal, no processo judicial diga o contrário. Algumas "dicas" de última hora que o tempo urge e não resta outro meio que não "despachar o assunto": "Deve levantar-se quando o Juíz entra na sala", "não ponha as mãos nos bolsos", e, no meio daquele corropoio do átrio do Tribunal, por vezes ouve-se alguém que nos diz convictamente: "Eu sou inocente Dr". A velha estratégia da confissão constituir atenuante, desaba neste momento e a defesa parece quase impossível. Como provar a inocência?
Durante este angustiante diálogo, no outro canto, o Advogado constituído, fala alegremente com o seu constituinte, dizendo palavras de incentivo, optimismo e esperança.
Nesta altura é patente e notória a diferença entre quem sabe que é melhor para si contratar um Advogado e aquele que não aparece no escritório do que lhe foi nomeado.
Deambulamos pelos Tribunais deste País, com maior ou menor empenhamento naquilo que fazemos, carregamos as nossas próprias, angústias e medos.
Fazemos, mentalmente, contas à vida.
Todos queremos ganhar as causas, oficiosa ou não.
Ninguém gosta de perder. Nem a feijões.
Lá fora, temos os nossos carros. Alguns, topo de gama, outros, nem por isso e outros ainda verdadeiros "chassos".
"Chassos" não. Clássicos, dinossáurios da indústria automóvel.
Se somos novinhos na profissão, observamos atentamente, todo aquele ritual da entrada na sala de audiências, e damos por nós a pensar, porque carga de água é que nunca ninguém me disse, que tínhamos que ir apertar a mão ao Juiz e ao Magistrado?
E a história da devida vénia? Não a encontro na Lei. Estará lá?
Ah, finalmente fez-se luz: O dever de urbanidade!
Caramba, mas, até aqui acreditava-se que seria recíproco.
Não. Parece que não. O que se obtém é um ar enfadado, um estender de mão sem energia e que mais parece uma real concessão.
Claro que não é sempre assim. Felizmente!
Mas é assim muitas vezes....
Não se entende as horas de espera, após a chamada, antes da entrada na sala.
Mas, na verdade ninguém explica por quê.
Curiosamente, os colegas mais antigos na profissão, parecem incomodados com a espera, mas resignados.
É isso. Resignemo-nos!
Será que, nós os Advogados, somos hoje uma classe de resignados?
Não é possível.
Visitamos os juizos, pedimos processos para consulta, não entendemos aquela organização do processo. No escritório do patrono é diferente. Não compreendemos quando o funcionário diz que: "o processo não tá cá".
Estará onde?
Será que não fui às aulas onde ensinaram que quando os processos não estão "lá", temos que insistir para os irem buscar?
O que move esta classe profissional?
Na Rua, no Café, nos jornais, na TV, aparecem Senhores Doutores e gente sem título, a dizer que os Advogados são aldrabões, vigaristas, só servem para pedir dinheiro e não fazem nada.
Ah não! Isso não. Então e aquelas horas todas perdidas em frente ao Monitor, em busca da jurisprudência adequada para o caso? As horas de leitura da Doutrina?
Porque será que pensam isso de nós?
Nós, os Advogados, maioritariamente, não somos isso! Ou somos?
Dulce Reis
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25.09.2006.
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